eskumalha
terça-feira, agosto 22, 2006
 
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ENSAIO SOBRE A "ESKUMALHA"

Ah, foda-se, que finalmente aparece à disposição dos milhões de adoradores da Eskumalha em geral, e Eskumalhosos em particular, algo porreiro para lerem em voz alta, durante a missa de Domingo. Este tributo aos Eskumalhosos tem por escopo elucidar a maralha, com mais ou menos clareza, sobre as propriedades e características intrínsecas deste peculiar tipo de indivíduo. Iluminado pelo mais puro espírito científico, este ensaio filosófico, qual salgalhada semântica, parrilhada ontológica ou dissertação canónica à Zé do Pipo, tem como única pretensão introduzir na literatura portuguesa a moda de começar um texto com "Ah, foda-se". Talvez mesmo vir a substituir o já gasto "Era uma vez..." dos contos de fadas. "Ah, foda-se, que naquele castelo vivia uma princesa, e a bruxa má lançou-lhe um feitiço..." Muito, muito melhor. Mas comecemos...

Segundo dizem os teóricos J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo,

escumalha, s.f., do germânico skums: "espuma", "ralé" (fig.).

Pois, mas eu prefiro

eskumalha, s.f., do grego (e às vezes do greg) eskumalha: "vivam as putas e o vinho verde, que se foda o resto".

Desde os primórdios da Antiguidade (desde 1997) que a Humanidade se vem confrontando com o problema de definir com exactidão o alcance do monómio "Eskumalha". Interessante é verificar que, apesar do desconhecimento generalizado em torno do conteúdo da expressão, esta tem fomentado na vivência daqueles que se lhe entregam, uma repetida prática de diferentes atitudes e posturas que urge categorizar. Nem que seja por gozo.

Já Platão (e ainda hoje, a terceira idade em geral) dizia: "Isto está entregue à Eskumalha". Ao que Aristóteles replicava: "Mas o que é isto?" Durante séculos a análise escolástica e exegética passou ao lado do aprofundamento hermenêutico que aqui se pretende, minimizando o alcance da expressão de Platão, e traduzindo a réplica de Aristóleles "Mas o que é isto?" para um mais coloquial "Mas que merda vem a ser esta?". Evidentemente que a pouco subtil troca de palavras foi bastante para que a preocupação original de Aristóteles desaparecesse do âmbito de estudo dos eskumalhosos. A reter, apenas a imagem de Aristóteles, em pleno Liceu, com a mão na ilharga e atitude brejeira, a atirar o tal "mas que merda vem a ser esta" ao Platão. Isso sim, é divertido.

A nós, porém, nos parece que Platão, ao dizer isto, se referia basicamente a tudo. Do género: "Está tudo entregue à Eskumalha" ou "Esta merda é toda deles". Numa interpretação intemporal da frase, tendo como base o próprio conceito ideal platónico, será legítimo supor que o que Platão queria dizer era: "O mundo é para ser entregue à Eskumalha". Esta interpretação escatológica foi extensivamente apropriada por vários filósofos do Séc. XX, entre eles José Estaline e José Adolfo, que queriam à viva força que as suas respectivas escumalhas tomassem o mundo por direito próprio. O erro deles foi terem confundido "Eskumalha" com, respectivamente, "Bolcheviques com Más Ressacas" (culpa de mistelas de má qualidade como a vodka "Natasha"), e "Nazis em Excesso de Anfetaminas" (problemas graves na orientação sexual dá nisto). De facto, nunca foi prioridade dos sociais-imperialistas russos, quer a produção, quer o consumo do vinho verde, atitude manifestamente incompatível com a vivência de um bom Eskumalhoso. Quanto às putas, há quem diga que os oficiais alemães só lá iam para poderem apanhar doenças venéreas, que depois tentavam passar às tropas aliadas, quando estas lhes iam ao cú. Enfim, uma derradeira tentativa, já desesperada, de ganhar a guerra. Do pensamento platónico fica, então, essa carta branca para que a Eskumalha domine o mundo. Claro que não é fácil, mas a coisa está a caminho. Portugal está no papo, e até já anda um gajo em Moçambique.

Mas mais do que um comando universal que a todos obrigue, a Eskumalha aparece, por via da praxis dos seus membros, como um código de conduta, uma verdadeira bíblia de como fazê-lo. Na ausência de uma escritura normativamente condicionante, há então que considerar a vertente fenomenológica do processo de eskumalhação (haha, inventei uma palavra!). E aqui, mais uma vez, nos vemos forçados a recorrer à definição enunciada. Embora não haja nela qualquer constrangimento deontológico evidente, a análise por partes levar-nos-á mais longe. Senão vejamos: começa por "Vivam as putas (...)". Dizer isto em público, só por si, parece fazer saltar sorrisos em toda a gente, como que aludindo à necessidade premente de se viver em contínuo estado de regabofe. Embora isto seja, no essencial, correcto, há mais que retirar da expressão, como o enorme respeito que se demonstra pela existência humana (por oposição, claro está, a "faleçam as putas"). De facto, "Vivam as putas" aparece como um autêntico hino à vida, se bem que o recurso à puta como símbolo do ser humano possa ser considerado um tanto ou quanto polémico. O recurso à palavra tem, no entanto, outras intenções, como se verá mais adiante. Para já, interessa avançar para o "Viva o vinho verde", expressão claríssima que ninguém precisa de justificar.

O busílis da expressão "Viva o vinho verde" está, meus caros amigos, na intencional especificação do tipo de vinho que se exalta: um vinho de região demarcada, que tem de uvas brancas as castas Alvarinho, Trajadura, Loureiro e Pedernã; e de uvas tintas a casta Vinhão. A quem especificou o tipo de vinho, até se poderia exigir mais algum zelo na enunciação da qualidade do mesmo: se é monocasta, tinto ou branco, qual o grau alcoólico adequado, com que comidas vai melhor, etc (do género "Vivam as putas e o alvarinho a 6 graus centígrados a acompanhar uns camarõezinhos, e que se foda o resto"). Inexplicável se tornaria, no entanto, a decisão de deixar de fora os excelentes Douro, Dão, Bairrada, ou aquelas magníficas pomadas do Alentejo. Nah, aqui o recurso ao termo "verde" tem, como forte mensagem subliminar, o sentido antinómico de "maduro". Assim, quando se diz "Viva o vinho verde", deve-se compreender não a exaltação do produto de uma região vitivinícola específica, mas um "Viva o vinho, enquanto está verde", tipo "Viva o vinho mal sai da pipa" ou "Vamos a ele mal o gajo tenha álcool".

Quanto ao "e que se foda o resto", estamos pois perante uma versão popular do erudito "e que se ame o resto". É mais uma prova da atitude de tolerância e respeito pelos valores vigentes nas culturas que nos rodeiam. Dado que os Eskumalhosos, enquanto pessoas de elevadíssima formação intelectual e cívica, assumem uma postura activa no enquadramento ético do agir humano, compreende-se a evolução do "amar" (passivo, contemplativo), até ao "foder" (activo, interventivo). Até porque "pode ser que te ame os cornos" poderia induzir o interlocutor em erro sobre as reais intenções do Eskumalhoso que profere a frase.

Tecidas estas profundas e inebriadas (ou profundamente inebriadas?) considerações, ficamos a saber que o Eskumalhoso, para além de indivíduo com alto sentido moral e apetência pelo copo, tem uma espécie de direito ancestral a governar o mundo. Mas será que o aprofundamento do ente eskumalhoso (entis eskumalhosus) se esgotou? É óbvio que sim, mas nada me detém. Avancemos, que se faz tarde.
A tomada de consciência do estatuto do Eskumalhoso na sociedade constitui, por si só, um devaneio amplexivo enucleador. Mas onde nos poderá levar? E que raio significa o que acabei de dizer? Estes mistérios sobre os limites ontológicos da Eskumalha aproximam a vivência do Eskumalhoso, na sua intrincada autopoiesis, do papel de Deus. De facto, que dizer de alguém que, pelo menos para os caloiros, se lhe substitui activamente nesse tormentoso e inexorável conduzir do ser humano pelo vale da desgraça que é a economia portuguesa? É preciso ter tomates (Deus, a ver pelos tratados de teologia dogmática disponíveis no mercado, não está provado que os tenha). Portanto, afinal até havia mesmo mais a acrescentar ao direito ancestral que os Eskumalhosos têm a governar o mundo: esse direito é um direito divino. Porque, lá no fundo, o Eskumalhoso é Deus.

Claro que vocês já estão a pensar que o que foi dito, agora é que é impossível de superar. Mas desenganem-se, meus amigos e concidadãos: não só é possível, como é fácil. Repescando um parágrafo anterior, foi ressalvado um segundo sentido para a alusão às putas na definição de Eskumalha. Pois bem: Quem são as putas? (sempre quis pôr esta pergunta por escrito). Está bom de ver, pela sabedoria popular, que esta afincada trabalhadora do sector terciário, que esta verdadeira prestadora de serviços essenciais, enfim, que esta autêntica puta, exerce a mais antiga profissão do mundo. Acompanhem-me: se a mais antiga prestadora de serviços do mundo é a puta, o mais antigo cliente é o putanheiro. E chiça, que isto é que é prestígio. Devíamos ser todos presidentes honorários da DECO. Como diriam os antigos filósofos Alkmeon de Cróton ou Tales de Mileto (ou mesmo Pedro da Guarda ou André de Braga): "Que classe!!!".

E pronto, envidados possíveis e impossíveis esforços no sentido de subjugar à luz da razão algo de tão obscuro e duvidoso (e que, esforços à parte, é para assim se manter) como a "Eskumalha", resta agradecer a todos os que ajudaram à feitura deste Ensaio, e chamar paneleiros do caralho aos seus críticos. "Ai, que isso é uma algaraviada pegada, e não sei o quê..." Ide pró caralho, pá, eu não sou algarvio. Sou minhoto, é por isso que isto tem tanto palavrão, e quando muito estamos perante uma minhotada. (E se eu fosse de Trás-os-Montes? Trásmontada? Trásmontada cheira a termo técnico saído de um filme porno: "Olha, querida, nesta cena, depois de fazeres o felatio ao Rúben Rabador, vais ser trásmontada ali por aquele pónei,´tá bem?"). Acontece é que eu adoro divagações deste tipo.

Como nota final, o autor reconhece que o tributo original teria sido, em tempos, prometido em forma de poema. Mas a verdade é que a poesia é muito pessoal, demasiado intimista para explanações neste género de temas. Eu sei o que vocês estão a pensar: "buuuu!". Mas buuuu, o caralho, apeteceu-me fazer antes isto. Querem um poema, escrevam-no vocês. Em alternativa, quem me chupar a piça, recebe uma quadra.

LUIGI MAMASINI DIXIT
 
Comments:
ahahahaha
 
Mamasini, isto está muito bom!

 
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Blog eskumalhoso. Insulto fácil.

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